Monetarismo e Escola Austríaca : Diferentes defesas da liberdade

A Escola Monetarista teve início com o economista Frank Knight no início do século XX e teve como principal autor o prêmio nobel de economia (1976) Milton Friedman, sendo considerada uma escola tradicional da Universidade de Chicago que focava na política monetária para solucionar crises.


Diferentemente do pensamento do economista John Maynard Keynes, que defendia maiores gastos estatais para solucionar crises, o pensamento Monetarista considerava que a política monetária , ou seja, o controle da oferta de moeda, seria a principal ferramenta para conter uma economia em recessão.


Do outro lado do oceano, a Escola Austríaca se iniciou com o economista Carl Menger, ao final do século XIX, na Áustria e teve como pricipais membros Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig Von Mises, o também nobel de economia (1974) Friedrich Hayek e, mais contemporaneamente, o economista Murray

Rothbard. O principal pensamento da escola, que logo migrou para os Estados Unidos, consistia na crença de que um planejamento central da sociedade pelo Estado seria impossível uma vez que o conhecimento estaria difuso entre os indivíduos presentes na sociedade e cada um desses indivíduos interpretaria o

conhecimento de forma subjetiva.


Tanto os monetaristas quanto os austríacos se tornaram importantes defensores do livre mercado e dialogaram bastante entre si ao longo de todo século XX, como pode ser demonstrado com a The Mont Pelerin Society , sociedade fundada em 1947 que reúne vários pensadores liberais em encontros

periódicos tendo como membros e co-fundadores principais Friedman, Mises e Hayek. Entretanto, o principal objetivo desse texto será contrastar as duas correntes apresentadas mostrando alguns pontos de

divergência e convergência.


Começaremos com uma diferença crucial para enterdemos de onde as duas escolas partem realmente : a epistemologia. Essa palavra, que pode parecer um pouco complicada no começo, diz respeito ao método, a forma como cada corrente produz conhecimento, chega nas suas conclusões e

transmite as suas ideias. Conhecer a base epistemológica é importante para saber como serão desenvolvidos seus argumentos em defesa do liberalismo.


Nesse sentido, o Monetarismo de Milton Friedman usará como método o Falsificacionismo, idealizado inicialmente por Karl Popper. Essa corrente parte da ideia que interpretamos os fatos, que não falam por si mesmos, com a nossa mente e, com isso, sempre haverá um viés na transmissão de fatos, hipóteses e teorias. Sendo assim, o debate sobre teorias válidas seria dado a partir do método pelo qual elas são descritas, devendo haver um meio de provar que a hipótese inicial esteja errada.


Além do Falsificacionismo, outra corrente epistemológica presente no Monetarismo seria o Empirismo, que defende a criação de teorias que consigam prever tendências futuras por meio da observação dos fatos na realidade para se chegar a uma conclusão cientificamente válida. Segundo o Monetarismo, a economia, então, seria uma ciência dos meios de produção que conseguiria prever resultados objetivos a partir de pesquisas e observações numéricas.


Utilizando um método diferente, a Escola Austríaca, como esquematizado por Mises em Ação Humana, adota o Apriorismo-dedutivismo para chegar às suas teorias. O foco dessa metodologia não é a observação empírica, vista como falha, mas sim a criação de uma verdade autoevidente (que não necessita

demonstração) para iniciar a formulação teórica de hipóteses. A partir do axioma irredutível, são formuladas teorias e conclusões decorrentes que não precisam de uma comprovação empírica, uma vez que partem de uma premissa verdadeira e irrefutável.


É possível ver o Apriorismo de forma concreta no livro Ação Humana, escrito por Mises, no qual o axioma inicial se encontra no fato de que os seres humanos agem em busca de melhorar sua situação inicial, tendo como base um sistema imperfeito de informações sobre os recursos ao mesmo tempo que, por meio da ação, vão criando novos fins e novos meios para os insumos presentes. A partir dessa premissa, cria-se uma base argumentativa sobre toda troca ser benéfica e, como resultado, o livre mercado como um todo ser positivo, já que ele é baseado em um sistema de trocas.


A próxima diferença se encontra na visão acerca da política monetária, que pode ser definida como um conjunto de medidas que determinado governo adota para controlar a oferta de moeda na economia, ou seja, a gerir a liquidez do sistema financeiro. Esse tipo de política pode ser feita por meio de determinações do valor das taxas de juros, compra e venda de títulos públicos, aumento ou redução da taxa de recursos monetários que os bancos devem manter guardados em seu caixa, não podendo ser emprestados, ou pela manipulação da taxa de redesconto (empréstimo do Banco Central às Instituições financeiras).


Segundo o Monetarismo, como o próprio nome da escola sugere, a política monetária é a melhor forma de manter a estabilidade da economia de um país além de, quando feita de forma equivocada, ser a principal fonte de crises e recessões. Sendo assim, uma política monetária sólida deveria ter um padrão de

expansão da oferta de moeda no sistema a taxas constantes e baixas quando necessário, de modo a não elevar a inflação.


Outra posição é adotada pela Escola Austríaca, que afirma que mudanças na política monetária acabariam agravando as crises econômicas ao criar bolhas e um crescimento artificial da economia. Isso ocorreria com a intervenção governamental nas taxas de juros, com um valor abaixo do estabelecido no

mercado, o que incentivaria os indivíduos a gastar mais e poupar menos, aumentando a circulação de moeda na economia e fazendo com que negócios sejam criados de forma artificial, uma vez que são fornecidos empréstimos para eles.


Quando essas iniciativas empresariais sem liquidez nenhuma não encontram uma demanda correspondente no mercado e acabam quebrando, uma crise econômica se iniciaria no país; o mercado dos maus investimentos feitos. Caso o governo intervisse nessa crise de correção via política monetária ou fiscal, as bolhas acabariam se tornando cada vez maiores e as recessões decorrentes

cada vez piores, o que indica que o Estado deveria deixar a economia se recuperar de forma natural.


O diagnóstico de crises feito por Hayek, citado acima, se assemelha um pouco a interpretação de Milton Friedman e Anna Schwartz no livro Monetary History of The United States com relação à Grande Depressão iniciada em 1929. Essa semelhança repousa no fato de que os autores monetaristas atribuem a

crise a um erro de política monetária por parte do Federal Reserve Bank (uma espécie de Banco Central americano), que agiu na mesma direção do ciclo econômico presente ao reduzir a oferta de moeda.


Porém, uma leve semelhança entre as duas correntes não pode ser observada ao estudar as percepções sobre informação de cada uma delas. Nesse sentido, a informação no mercado pela visão austríaca tem um caráter interpretativo e subjetivo, ou seja, depende de como será aplicada pelo indivíduo que a recebe para obter lucros. Enquanto isso, os monetaristas acabam concordando com a visão Neoclássica de informação, que é um bem objetivo no mercado e que deve, preferencialmente, ser de conhecimento geral.


Por fim, a última diferença entre a Escola Monetarista e a Escola Austríaca será na defesa da menor intervenção estatal na economia. Os economistas austríacos se opõem ferrenhamente ao intervencionismo, com alguns autores, inclusive, sendo contra a existência de um Estado, uma vez que o conhecimento do mercado se encontra disperso na sociedade, o que impossibilita que seres humanos, falhos por definição, detenham grande parte dessa informação e intervenham para aperfeiçoar o sistema de mercado. Já os monetaristas se opõem, principalmente, à uma intervenção via aumento dos gastos

públicos para solucionar crises, uma vez que a política fiscal demoraria mais tempo para ser implementada e poderia surtir efeito durante o período de recuperação da economia, o que promoveria um crescimento artificial.


Com a comparação feita, é possível observar as diferentes visões que duas escolas que seguem uma mesma corrente política, o liberalismo, podem ter sobre variados temas, o que demonstra a existência de várias formas de defender a liberdade econômica . Sendo assim, todo liberal que deseja ter sua posição mais fundamentada teoricamente deve conhecer as principais defesas da liberdade existentes por meio dos principais autores, não deixando de estudar o Monetarismo e a Escola Austríaca.


REFERÊNCIAS:

> https://www.youtube.com/watch?v=mr2fexY-utY&t=3s

> https://www.sunoresearch.com.br/artigos/politica-monetaria/#1

> https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedade_Mont_P%C3%A8lerin

> A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos : Uma Breve Explicação, disponível em

https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=141

> MISES Von L., Ação Humana (p. 35-46, 57-74, 130-132, 185-193, 205-210)

> EKELUND R. B. e HÉBERT R., A History of Economic Theory and Method (capítulo 22:

Contemporary Macroeconomics Monetarism and Rational Expectations; p. 552- 570);

> DE SOTO H., A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade

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